Mudança

Após três anos, mudo meu blog do Uol para o WordPress. Peço aos poucos leitores que atualizem em suas listas e visitem esse novo endereço:

http://andretoso.wordpress.com/
Contabilidade

Hoje pensei na possibilidade de contratarmos institutos de pesquisa para a realização de um balanço individual sobre alguns dados de nossas vidas. Esse instituto contabilizaria como você despendeu de sua vida. Imagine se não seria legal se, após 24 anos, chegasse em minha casa um relatório dizendo:

André Toso, em sua existência, até o presente momento, o senhor leu X livros, assistiu X filmes, escutou X horas de música, dormiu X horas, gastou X tempo no banho. O senhor tomou X litros de cerveja, X litros de uísque e X litros de Coca-Cola. Comeu X quilos de comida e chorou X litros de lágrimas. Dessas, X litros foram desnecessárias e X litros foram vitais para que o senhor se transformasse no que é hoje. O senhor leu X poemas e escreveu, como jornalista, X caracteres. Falou X palavrões, sendo os mais usados o “puta que pariu” e o clássico “caralho”. O senhor beijou X mulheres sem sentir absolutamente nada por elas e X mulheres que significaram alguma coisa para o senhor. Apaixonou-se de verdade X vezes e sofreu por isso X horas.

Em seu último namoro, o senhor perdeu X horas com discussões estéreis sobre situações de ciúmes ou egoísmos sem sentido. Foram exatas X horas perdidas com tentativas de parecer melhor que sua ex-namorada, e vice e versa, por puro ego infantil. Vocês dois trocaram X palavras, se beijaram por X horas, fizeram sexo por X horas e simplesmente permaneceram em silêncio, contemplando um ao outro, por X horas. Entenderam-se por X horas, desentenderam-se por X horas, se amaram por X horas e se odiaram por outras X horas. O senhor a teve como a pessoa mais importante de sua vida por exatas X horas.

Nos últimos 288 meses, senhor André Toso, foram X idéias inteligentes que saíram de sua mente e X idéias estúpidas. O senhor mentiu X vezes e foi sincero X vezes. Mentiu para o senhor mesmo inacreditáveis X vezes. O senhor, mesmo que inconscientemente, pensou no suicídio X vezes e imaginou ser a pessoa mais feliz do universo X vezes. Foram X horas melancólicas, X horas eufóricas e X horas indiferentes. André Toso, o senhor perdeu X horas com bobagens e X horas com conjecturas temerosas do futuro que não se realizaram. Sua intuição lhe enganou X vezes e o auxiliou X vezes. O medo tomou conta durante X horas. A coragem contabilizou X horas.

Em resumo, foram X horas da vida que fizeram algum sentido para o senhor.

Obrigado pela atenção, em 24 anos enviamos a segunda parcial. Estamos de olho no senhor.
Dica


Acabei de voltar do cinema... Assistam ao novo filme do Batman. Meu Deus do céu! Uma das três melhores interpretações da história do cinema, diálogos inacreditáveis (ao menos cinco frases são absolutamente antológicas), história maravilhosa. Um pontapé no fígado. Não adianta tentar descrever, todo mundo tem que ver.
Das intensidades

Enquanto choro
Desfazem-se meus pensamentos

Enquanto rio
Desfazem-se meus lamentos

Enquanto oro
Desfazem-se meus segredos

Olho sempre o outro lado

O choro alivia...
O riso distrai…
A oração liberta…

Três doses que em hora certa
Formam tudo o que interessa:

A intensidade faz o homem
A indiferença o dilacera

Minha irmã grávida pt.2

Deixar a mão por alguns minutos na barriga gigante de uma mulher grávida é maravilhoso. Não desistirei de sentir um chute...
Alguém acredita em sorte?

Sabe quando você sente que está na sua semana de sorte? Tudo parece mais legal...
Frase do dia

São Paulo é a cidade do foda-se.
Borges pela manhã

Afterglow

O ocaso é sempre comovente
por mais pobre ou berrante que seja,
porém mais comovente ainda
é o fulgor desesperado e final
que enferruja a planície
quando o último sol mergulhou.
É doloroso manter essa luz tensa e diversa,
essa alucinação que impõe ao espaço
o medo unânime da sombra
e cessa de repente
quando notamos sua falsidade,
como cessam os sonhos
quando sabemos que sonhamos
Frases do dia

"Não importa o que fizeram com você. O que importa é aquilo que você faz com aquilo que fizeram com você"

"O que mata o jardim não é o abandono... O que mata o jardim é esse olhar vazio, de quem por ele passa indiferente". Mario Quintana




Vale a pena

É sempre bom ler uma entrevista com alguém que realmente tem alguma coisa na cabeça:

http://revistatrip.uol.com.br/166/negras/home.htm
Pensamento do dia

"Acho que sabedoria é saber sofrer pelas razões certas. Quem não sofre, quando há razões para isso, está doente. Quem é feliz sempre, e nunca sofre, padece de uma grave enfermidade e precisa ser tratada a fim de aprender a sofrer. Sofrer pelas razões certas significa que estamos em contato com a realidade, que o corpo e a alma sentem a tristeza das perdas e que existe em nós o poder do amor. Toda experiência de amor traz, encolhida no seu ventre, à espera, a possibilidade de sofrer. Assim, a receita para não sofrer é muito simples: basta matar o amor". Rubem Alves
Sem rumo

Noite agradável de segunda-feira, daquelas em que o vento apenas ensaia seus sopros e o calor se apresenta em seu ponto ideal. Escolho uma rua qualquer de Florianópolis. É um velho costume: gosto de andar sem rumo em lugares que não conheço. Não tinha a mínima idéia de onde estava indo, mas tive sorte e fui parar na avenida principal da cidade, contornada simetricamente por uma orla que invade a ilha.

Fiquei vidrado no cenário e continuei andando sem rumo pelo calçadão. Foi ali que senti uma solidão maravilhosa. Não como a solidão esmagadora de São Paulo. Era uma solidão gostosa e contemplativa. Isso ocorre, percebi, em lugares onde não se tem nenhuma ligação. Eu não aguardava um telefonema, não esperava encontrar uma pessoa indesejada. Estava andando sem propósito por lugares desconhecidos, observando pessoas estranhas e não sabendo o que encontrar.

Resolvi me sentar em um banco na borda da orla. Acendi um cigarro, escolhi Nina Simone como trilha sonora – sim, alguma companhia feminina era necessária. Observei um barco de pesca - iluminado opacamente pela luz da cidade - com dois homens que jogavam suas redes ao mar com serenidade invejável. Um pássaro, cuja espécie desconheço, pousa em uma pedra ao meu lado. Fica como eu, contemplando o nada. Às vezes, seus minúsculos pés ameaçam pequenos passos indecisos. Nina Simone aumenta a intensidade de seus graves, canta com tristeza envolvente e acaba aumentando minha solidão. O barco prossegue deslizando pelas águas iluminadas e outro pássaro pousa em outra pedra do lado contrário do primeiro. Os dois voam, ao mesmo tempo, no exato momento em que Nina rasga a voz no refrão.

Fiquei ali até terminar a música e o cigarro. Olhei fixamente para a orla, levantei-me e segui em direção ao hotel. Sozinho, mas absolutamente feliz por ter tomado um caminho desconhecido e, ao mesmo tempo, com um cenário que me parecia tão familiar para aquela noite.
Minha irmã grávida Pt.1

Como pode um homem como eu se apaixonar completamente por uma barriga? É inacreditável!
Quatro doses de Leminski

Eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha
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Já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
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Amarga mágoa
o pranto tem
por que cargas d'água
chove tanto
e você não vem?
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Isso de querer ser exatamente
aquilo que a gente é ainda vai
nos levar além
O dia de Ricardo

Brasília, dia 22 de abril de 2008, 21 horas. Em uma rua tranqüila, próxima à Universidade de Brasília, Marina assiste à novela passivamente. Atenta-se apenas quando entra o plantão jornalístico. A notícia: tremores de terra assustam o Estado de São Paulo. Quase sem conter a euforia, invade o quarto do marido, que já dormia:

- Ricardo, Ricardo, pelo amor de Deus! Um terremoto em São Paulo! Levanta já, levanta...

Ricardo parece não acreditar. Levanta de um salto, a mulher sobe na cama e o abraça com força. Os dois sorriem, saltitam em cima do colchão e comemoram a notícia com sinceridade comovente.

- Enfim, enfim! Você vai trabalhar de verdade. Obrigado, obrigado – clama a mulher aos berros, com as duas mãos entrelaçadas apontando os céus.

- Pega a champagne que eu guardei – ordena o marido.

Não dá tempo. O telefone de Ricardo começa a tocar. O interfone do prédio é acionado. A filial da Rede Globo em Brasília quer que ele entre ao vivo para dar explicações. Enquanto a reportagem sobe os doze andares, pega todos os seus livros sobre sismologia, empoeirados e largados pelo tempo de irritante calmaria nas placas tectônicas brasileiras.

- Não dá tempo de estudar. O que eu falo?
- Amor, você estudou isso a vida inteira. Vai dar certo.

As filmagens começam. Ricardo está amassado, vestindo a primeira roupa que encontrou no armário e sem sapatos. O maior especialista em sismologia do País não consegue nem pronunciar com clareza os termos básicos, como escala Richter. Está visivelmente nervoso. A entrevista é curta e nada esclarecedora. A equipe da Globo combina de voltar pela manhã para um bate-papo no Bom Dia Brasil.

- Vivi trinta anos na biblioteca e no Observatório estudando e quando acontece na prática olha o papelão. O último abalo desse porte foi em 1955, meu avó não decepcionou, tenho certeza. Falei que deveríamos ter nos mudado para o Japão quando tivemos chance.
- Calma, amor, você estava por fora do tema. Tem a noite toda para se preparar. Amanhã é seu dia, tenho certeza.

Ricardo vai para o Observatório da Universidade de Brasília e estuda durante a madrugada. Toda a teoria sismológica, os autores mais respeitados, projeções, estudos. Ele devora informações, como fizera trinta anos ao longo de sua vida.

Na manhã seguinte veste o melhor terno, muito bem engomado por Marina. A esposa ajeita seu cabelo e a gravata: repara nos mínimos detalhes. Era o dia de Ricardo, de mais ninguém.
A entrevista flui desastrosamente, as olheiras de Ricardo roubam a cena na tela da TV. A mulher assiste decepcionada. Ricardo distribui dados de pouca importância, atropela-se nas palavras e não tem a mínima idéia dos motivos de um tremor de terra em São Paulo. Termina a entrevista, recebe um olhar de frieza da mulher e comentários pouco animadores do cinegrafista. Olha para tudo aquilo, senta-se no sofá, respira fundo, pensa e sai de casa. Vai até o Observatório, escolhe a “Teoria Geral, Definitiva e Histórica da Sismologia” e debruça-se na biblioteca, aguardando pacientemente o próximo terremoto.



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