O dia de Ricardo

Brasília, dia 22 de abril de 2008, 21 horas. Em uma rua tranqüila, próxima à Universidade de Brasília, Marina assiste à novela passivamente. Atenta-se apenas quando entra o plantão jornalístico. A notícia: tremores de terra assustam o Estado de São Paulo. Quase sem conter a euforia, invade o quarto do marido, que já dormia:

- Ricardo, Ricardo, pelo amor de Deus! Um terremoto em São Paulo! Levanta já, levanta...

Ricardo parece não acreditar. Levanta de um salto, a mulher sobe na cama e o abraça com força. Os dois sorriem, saltitam em cima do colchão e comemoram a notícia com sinceridade comovente.

- Enfim, enfim! Você vai trabalhar de verdade. Obrigado, obrigado – clama a mulher aos berros, com as duas mãos entrelaçadas apontando os céus.

- Pega a champagne que eu guardei – ordena o marido.

Não dá tempo. O telefone de Ricardo começa a tocar. O interfone do prédio é acionado. A filial da Rede Globo em Brasília quer que ele entre ao vivo para dar explicações. Enquanto a reportagem sobe os doze andares, pega todos os seus livros sobre sismologia, empoeirados e largados pelo tempo de irritante calmaria nas placas tectônicas brasileiras.

- Não dá tempo de estudar. O que eu falo?
- Amor, você estudou isso a vida inteira. Vai dar certo.

As filmagens começam. Ricardo está amassado, vestindo a primeira roupa que encontrou no armário e sem sapatos. O maior especialista em sismologia do País não consegue nem pronunciar com clareza os termos básicos, como escala Richter. Está visivelmente nervoso. A entrevista é curta e nada esclarecedora. A equipe da Globo combina de voltar pela manhã para um bate-papo no Bom Dia Brasil.

- Vivi trinta anos na biblioteca e no Observatório estudando e quando acontece na prática olha o papelão. O último abalo desse porte foi em 1955, meu avó não decepcionou, tenho certeza. Falei que deveríamos ter nos mudado para o Japão quando tivemos chance.
- Calma, amor, você estava por fora do tema. Tem a noite toda para se preparar. Amanhã é seu dia, tenho certeza.

Ricardo vai para o Observatório da Universidade de Brasília e estuda durante a madrugada. Toda a teoria sismológica, os autores mais respeitados, projeções, estudos. Ele devora informações, como fizera trinta anos ao longo de sua vida.

Na manhã seguinte veste o melhor terno, muito bem engomado por Marina. A esposa ajeita seu cabelo e a gravata: repara nos mínimos detalhes. Era o dia de Ricardo, de mais ninguém.
A entrevista flui desastrosamente, as olheiras de Ricardo roubam a cena na tela da TV. A mulher assiste decepcionada. Ricardo distribui dados de pouca importância, atropela-se nas palavras e não tem a mínima idéia dos motivos de um tremor de terra em São Paulo. Termina a entrevista, recebe um olhar de frieza da mulher e comentários pouco animadores do cinegrafista. Olha para tudo aquilo, senta-se no sofá, respira fundo, pensa e sai de casa. Vai até o Observatório, escolhe a “Teoria Geral, Definitiva e Histórica da Sismologia” e debruça-se na biblioteca, aguardando pacientemente o próximo terremoto.



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