Sem rumo

Noite agradável de segunda-feira, daquelas em que o vento apenas ensaia seus sopros e o calor se apresenta em seu ponto ideal. Escolho uma rua qualquer de Florianópolis. É um velho costume: gosto de andar sem rumo em lugares que não conheço. Não tinha a mínima idéia de onde estava indo, mas tive sorte e fui parar na avenida principal da cidade, contornada simetricamente por uma orla que invade a ilha.

Fiquei vidrado no cenário e continuei andando sem rumo pelo calçadão. Foi ali que senti uma solidão maravilhosa. Não como a solidão esmagadora de São Paulo. Era uma solidão gostosa e contemplativa. Isso ocorre, percebi, em lugares onde não se tem nenhuma ligação. Eu não aguardava um telefonema, não esperava encontrar uma pessoa indesejada. Estava andando sem propósito por lugares desconhecidos, observando pessoas estranhas e não sabendo o que encontrar.

Resolvi me sentar em um banco na borda da orla. Acendi um cigarro, escolhi Nina Simone como trilha sonora – sim, alguma companhia feminina era necessária. Observei um barco de pesca - iluminado opacamente pela luz da cidade - com dois homens que jogavam suas redes ao mar com serenidade invejável. Um pássaro, cuja espécie desconheço, pousa em uma pedra ao meu lado. Fica como eu, contemplando o nada. Às vezes, seus minúsculos pés ameaçam pequenos passos indecisos. Nina Simone aumenta a intensidade de seus graves, canta com tristeza envolvente e acaba aumentando minha solidão. O barco prossegue deslizando pelas águas iluminadas e outro pássaro pousa em outra pedra do lado contrário do primeiro. Os dois voam, ao mesmo tempo, no exato momento em que Nina rasga a voz no refrão.

Fiquei ali até terminar a música e o cigarro. Olhei fixamente para a orla, levantei-me e segui em direção ao hotel. Sozinho, mas absolutamente feliz por ter tomado um caminho desconhecido e, ao mesmo tempo, com um cenário que me parecia tão familiar para aquela noite.
Minha irmã grávida Pt.1

Como pode um homem como eu se apaixonar completamente por uma barriga? É inacreditável!
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